Durante estes dias temos tido uma situação de calor extremo em especial em França, com recordes de temperatura batidos em muitas estações, e com o valor mais alto alguma vez registado em território Francês, perto de 46ºC,  ser registado no sudeste do país.

Esta situação foi bem prevista e modelada pelos principais modelos de previsão, com uma antecedência de 8 dias!

Mas afinal, a que se deveu este evento extremo?

A resposta tem dois lados, um simples e outro mais complexo.

O lado simples é o lado mais óbvio, esta onda de calor deveu-se ao transporte de ar muito quente desde África, numa altura do ano em que temos muita incidência solar, que permitiu que se atingissem estas temperaturas recorde.
Um sistema de baixas pressões ficou muitos dias a oeste da Europa e simplesmente puxou muito calor para norte até França.

O lado mais complexo..é o porquê disto ter acontecido.

Não é comum este tipo de eventos, este padrão de bloqueio, em que uma depressão fica muitos dias na mesma posição, surge em determinadas circunstancias, quando o padrão de circulação atmosférico à escala do hemisfério norte permite que se gerem estes períodos em que as ondas da corrente de jato se tornam estáticas, gerando persistência de estados de tempo anormais nas regiões afetadas.

As principais causas naturais para estes eventos têm a ver com os ciclos de precipitação nos trópicos, o comportamento da temperatura dos oceanos e do gelo no ártico, a interacção entre a troposfera e a estratosfera e a distribuição das temperaturas entre as latitudes mais altas e as latitudes mais baixas.

Estes elementos geram uma resposta na circulação da atmosfera, que depois se reflete na ocorrência de eventos de bloqueio.

Nas últimas semanas assistimos a padrões de origem natural que favoreciam a ocorrência deste tipo de eventos.

E as mudanças climáticas?

.. Pois, as mudanças climáticas que sentimos hoje em dia são suficientemente notórias para exercer alguma influencia no que se passou.

Sabemos que as alterações do clima geram mudanças nos ciclos naturais que referimos atrás, e apesar de não sabermos ainda como é que a atmosfera vai reagir em concreto a essas mudanças a longo prazo ( temos vários cenários mas não há certezas absolutas ), sabemos que no momento atual as alterações do clima geradas pelo aquecimento global tendem a causar mais situações de bloqueio, e essas situações de bloqueio levam à ocorrência de períodos de tempo extremo, com alternância de situações meteorológicas pouco comuns.

Podemos afirmar com alguma segurança que as alterações do clima contribuíram para acrescentar mais uns graus às temperaturas sentidas em França nestes dias, o que num evento isolado é uma situação com muito pouca relevância, mas a longo prazo, com a tendência de haver mais eventos destes, se poderá tornar preocupante. Por isso é que convém limitar o aquecimento global a valores inferiores a 2, no máximo 3 graus face ás temperaturas médias registadas no século 18. ( Já estamos cerca de 0.7-1ºC acima ).

Bibliografia sugerida:
https://www.researchgate.net/publication/27266433_Climate_Change_and_the_North_Atlantic_oscillation
https://www.pnas.org/content/98/23/12876
https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/ab13bf