Para analisarmos em detalhe o comportamento da atmosfera este Inverno precisaríamos de escrever um livro… vamos tentar resumir o que se passou com base num dos principais agentes que modela o comportamento da atmosfera à escala global, os oceanos e as suas ligações com a atmosfera.Desde o final do VERÃO que as tendências por nós analisadas indiciavam um Inverno com precipitação acima da média.
Os principais modelos e os padrões globais apontavam para uma probabilidade razoável de precipitação superior ao normal, embora com algumas incertezas.
Havendo um ou outro sinal em outros modelos a apontar que os regimes de precipitação até se poderiam adiar (esses modelos acabariam por acertar no que se passou).O comportamento da atmosfera é regido em grande escala pelo que se passa nos oceanos, sendo que, os principais elementos que estamos a analisar este ano são regimes de circulação oceânica chamados ENSO (El Niño–Southern Oscillation), PDO (Pacific Decadal Oscillation) e IOD (Indian Ocean Dipole), que influenciam as convecção nos trópicos (ciclo MJO, Madden-Julian Oscillation).

Não vale a pena explorar muito a essência destes ciclos oceânicos, apenas vamos adiantar que estes correspondem a padrões muito claros nas temperaturas das águas oceânicas, que se organizam em dipolos, ou seja, numa certa faixa geográfica, estabelecendo-se gradientes entre águas mais frias e águas mais quentes, que depois influenciam o comportamento da atmosfera tropical (MJO).

A partir de Dezembro, o comportamento destas oscilações foi extremamente volátil porque, de forma geral, tivemos águas mais quentes que o normal um pouco por todo o lado.
Ou seja… não se formaram esses dipolos muito precisos e que geram padrões na atmosfera.

Existem muitos outros processos e padrões na atmosfera além daqueles relacionados com o oceano, mas o oceano é o elemento que tem maior acção no comportamento da atmosfera a escalas sazonais e intersazonais.
De uma forma geral haviam outras condições que apontavam para ter chovido mais, mas houve uma falha crucial relacionada com o comportamento do oceano e essa falha foi fatal.
A presença de águas demasiado quentes na zona da Indonésia, que interferiram com a presença de convecção forte sobre o Pacifico Oriental, e deslocaram a convecção para a Indonésia e Austrália.
Isto resulta numa menor amplitude e persistencia daquilo que se chama as fases 7-8-1-2-3 da MJO, e amplificou as fases 4-5-6 que estão associadas a tempo em regra mais seco no Inverno.
Em especial a fase 8 da MJO está geralmente mais ativa em anos/alturas com El Niño, como este, e está correlacionada com a evolução de baixas pressões sobre a Península Ibérica, em Dezembro.
Este ano, sem a fase 8 da MJO tão proeminente, acabámos por ter maior presença dos anticiclones.

Em Janeiro e Fevereiro há menos dependência da fase 8 da MJO para termos atividade ciclónica, e devido a isso surgiram mais situações de precipitação nestes meses, mais em linha com o esperado.

Este ano também ocorreu o colapso do vórtice polar, que em cerca de 60% das vezes resulta em períodos de 30-45 dias mais chuvosos que o normal, só que a sua ocorrência no fim de Dezembro coincidiu com um periodo extenso e altamente anómalo de grande amplitude da fase 5-6 da MJO, este comportamento da MJO tende a contradiar fortemente os efeitos do colapso do vórtice polar, adiando os seus efeitos, e impondo uma maior presença anticiclónica sobre a Península Ibérica.